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Guerra Civil Espanhola, Neruda, “Ay, Carmela!”

  • 28 de nov. de 2010
  • 4 min de leitura


Esta foto, acima e abaixo, é de um antepassado assassinado durante a Guerra Civil Espanhola [não sei de que lado lutava, mas é muito provável que do lado dos franquistas 😦 ]. Todos meus avós fogem da Espanha nesse período e vêm pro Brasil. Se instalaram no único “bairro espanhol” do Brasil, que fica em Sorocaba, na região do “Além Ponte”, bairro “Vila Hortência”. Todas as ruas desse bairro fazem referência à Espanha. Nasci na rua Sevilha e brincava nas vizinhas ruas Madrid e Catalunha. Na minha infância, era comum ouvir pelas ruas expressões e comentários em espanhol… os palavrões e repreensões, invariavelmente, saíam em espanhol! Teimosos, turrões, mãos-de-vaca, pobres, os espanhóis ali, como meus avós, começaram trabalhando na terra (eram conhecidos como “ceboleiros” pelas enormes plantações de cebola, cultura que trouxeram da Espanha), e aos poucos foram se metendo a fazer de tudo.

Bom, essa introdução toda é porque, de uns tempos pra cá, tenho buscado resgatar minhas raízes… nessa busca, achei um ótimo livro “Os Espanhóis”, de Sérgio Coelho de Oliveira, que conta a história do bairro em que cresci… fala das famílias, da cultura que trouxeram dalém mar… um livro muito bonito e forte, pra mim… descobri, inclusive, surpreso, que desse bairro surgiram núcleos de resistência anarco-sindicalistas que tiveram importante influência e foram inclusive perseguidos durante a ditadura!


Meu interesse tem passado, obviamente, pela poesia espanhola. Recentemente, ganhei de uma amiga querida algumas antologias sobre a poesia espanhola, basca, catalã… é nítido como a poesia recente da Espanha é fortemente marcada pela Guerra Civil. Ainda estou me aproximando dessa poesia e selecionando algo pra por aqui no Passarin. Por agora, vai uma poesia de Neruda sobre a Guerra Civil (vai um vídeo também em que o poeta chileno, antes de declamar seu poema, fala como a Guerra Civil foi um marco de virada na sua vida e poesia, donde surge o livro “Espanha no Coração”… a declamação é encantatória!). Neruda era diplomata e morava em Madrid, na famosa Casa das Flores de que trata o poema abaixo, quando explodem os bombardeios que também darão origem à “Guernica” de Picasso (a Casa das Flores pode ser visitada e possui uma arquitetura ímpar, veja aqui).

A Guerra Civil, apesar de toda a tragédia – que me fez estar aqui, agora – também foi um momento de forte organização dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, com a participação ativa de brigadas e milícias internacionais. (Aqui um documentário interessante sobre a Guerra). No final do post, depois do poema de Neruda, vai uma das canções preferidas pelos milicianos, a “Ay, Carmela” onde se canta, de forma alegre, a resistência e o amor. Essa canção jocosa, insinua que é por Carmela que os milicianos resistem… se lutam com toda a energia é porque querem voltar para os braços de Carmela! 🙂 Essa música também é conhecida por “El Paso del Ebro” e “Viva la XV Brigada” e foi ganhando diferentes letras ao longo do tempo e em diferentes lugares. Abaixo, coloco a versão de Miguel Naharro, grande violonista espanhol, e outra, mais próxima do original (nesse vídeo, há imagens muito legais de cartazes da época chamando para a luta revolucionária).


PABLO NERUDA DECLAMANDO “EXPLICO ALGUMAS COISAS”

EXPLICO ALGUMAS COISAS – PABLO NERUDA

Perguntam-me: onde estão os lírios? E a metafísica coberta de papoulas? E a chuva que muitas vezes golpeava suas palavras enchendo-as de frestas e pássaros?

Vou lhes contar tudo o que me passa.

Eu vivia num bairro de Madrid, com campanários, com relógios, com árvores. Dali se via o rosto seco de Castela como um oceano de couro. Minha casa era chamada a casa das flores, porque por todas as partes brotavam gerânios: era uma bela casa com cachorros e crianças.

Raul, lembra? ** Lembra, Rafael? ** Frederico, lembra? ** Debaixo da terra, lembram da minha casa com balcões onde a luz de junho afogava flores em suas bocas? Irmão, irmão!

Tudo era burburinho de vozes, o sal das mercadorias aglomeração de pão palpitante, mercados de meu bairro de Arguelles com sua estátua como um tinteiro pálido entre as merluzas: o azeite chegava em colheres, uma profunda palpitação de pés e mãos enchia as ruas, metros, litros, essência aguda da vida, pescados amontoados, contextura dos tetos com sol frio no qual a flecha se fatiga, delirante marfim fino das batatas, tomates se espalhando até o mar.

E numa manhã tudo estava ardendo, e numa manhã fogueiras saiam da terra devorando seres, e desde então fogo, pólvora desde então, e desde então sangue. Bandidos com aviões e mouros, bandidos com anéis e duquesas, bandidos com padres de preto abençoando-os vinham pelos céus a matar crianças, e pelas ruas o sangue de crianças corria simplesmente, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais rechaçariam, pedras que o cardo seco morderia e cuspiria, víboras que as próprias víboras odiariam!

Frente a vocês vi o sangue de Espanha levantar-se para afogá-los em uma só onda de orgulho e de punhais!

Generais traidores: olhem minha casa morta, olhem a Espanha dilacerada: porém de cada casa morta sai metal ardendo, em vez de flores, porém de cada ferida da Espanha desperta a Espanha, porém de cada criança morta levanta-se um fuzil com olhos, porém de cada crime nascem balas que acharão um dia o vosso coração.

E me perguntam: por que os seus poemas não falam dos sonhos, das folhas, e dos grandes vulcões de seu país natal?

Venham ver o sangue pelas ruas, venham ver o sangue pelas ruas, venham ver o sangue pelas ruas!

** Neruda, provavelmente, está se referindo aos poetas Rafael Alberti, Federico Garcia Lorca e Raúl Silva Castro. Lorca foi assassinado por nacionalistas durante a guerra. Segundo um juiz, ele era “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”.

“AY, CARMELA!” versão Miguel Ángel Gómez Naharro

“AY, CARMELA” VERSÃO CLÁSSICA

El Ejécito del Ebro Rumba la rumba la rumba la Una noche el río pasó Ay Carmela! Ay Carmela! Pero nada pueden bombas Rumba la rumba la rumba la Donde sobra corazón Ay Carmela! Ay Carmela! Contraataques muy rabiosos Rumba la rumba la rumba la deberemos resisitr Ay Carmela! Ay Carmela! Pero igual que combatimos Rumba la rumba la rumba la Prometemos resistir Ay Carmela! Ay Carmela!


 
 
 

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