Fragmentos de escrita semi-automática I: O esquecimento
- 7 de fev. de 2010
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a sombra escava em meu peito os sons mudos muídos de teus dentes, risos que acendem um farol negro que mostra só o erro, canto de sereia invertido. a sombra escava em meu peito a terra toda que te cubra o corpo até os olhos (do olhar primeiro em que te desejei o medo). algo te rumina nas madrugadas de meu corpo, mastigando lento tuas pálpebras, o desejo de teu pescoço e o gosto de tua primeira língua; dissolvendo a tua face dentre tantas, apagando tuas pegadas de meu dorso. luz de lua afiada que separa, como couro da banha, meu escuro-sedento de tua pele clara. o negror-dos-fins afundando seus dentes-de-não em tuas entranhas, reentrâncias, dobras, vãos. sinto os séculos que habitam os segundos fervendo o caldo grosso de nossos líquidos, derretendo os suores, salivas, cílios, fílios… teus lábios apodrecendo, suaves, ao contato de outros pares… o azedo das palavras-não-ditas fermentando no estômago das bocas (vazias)… essa grossa e opaca fervedura de nuncas-jamais donde evaporam-se os silêncios-dos-corpos-que-respirávamos-juntos…
tuas risadas – pombas negras ecoando assustadas pela casa – secarão como cascas de mofo às paredes brancas. e teu gozo, jorro de eumenino-sustos-e-lírios, vai se putrefazendo junto ao caldo gorduroso de tantos outros ruídos e prazeres cotidianos, vis, mesquinhos. um corpo dentro do outro se desfazendo. a digestão longa de tuas mãos, esse bolo de desejo-morto descendo os intestinos, a decomposição maciça de tudo que foi encontro, caminho. pela garganta da noite te regurgito ainda menina, voltam à boca mindinhos, a dor de tua voz rouca, um jeito só teu de chorar por dentro, uma noite inteira de mães mortas velando a si mesmas, e como quem vela um segredo, um silêncio, um filho, mastigo, mastigo o que era carne, mastigo, mastigo o sonho até o pó, mastigo, te mastigo a boca, o amargo, o nó, uma a uma as letras de teu nome, mastigo o púrpura, tuas unhas, tua dor inatingível de carinho, tua vulva… mordiduras! mastigo até deixar só a textura de teu rastro escuro na língua. te desamo até os gânglios, até os ossos. desbrilho teus olhos no descer necessário dos esôfagos. te obrigo a ser em mim o oco. teus olhares evolando-se nos gases próprios do apodrecimento donde teu rosto cada vez menos brilha, em breu, fátuo-fogo.
aguardo na dor lenta dos peristálticos movimentos a deglutição perfeita de teu miolo ainda vivo de ausência.



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