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Estevão Daminelli (Brasil)

  • 20 de mar. de 2011
  • 3 min de leitura


Dando continuidade às coletâneas de poetas vivos, camaradas e amigos que venho conhecendo ao longo do tempo, segue agora seleção de poesias de Estevão Daminelli, dos artistas mais ativos e criativos que conheci (e olha que nos conhecemos pouco!). Você pode conhecer mais da poesia do Estevão no Boi Morto e de suas canções no Macabeu Samsa.

As baratas fazem casas no abandono

As baratas fazem casas no abandono na lembrança terna e frágil dos momentos nos guardados e nos velhos documentos e nos íntimos vapores do teu sono

Quando é noite e o silêncio nos abraça como é doce nosso lar em hora morta! Aos cupins o que sobrou da porta; mariposas estampadas na vidraça

Vem o tempo e de repente somos nada. De repente nunca mais dias felizes. No armário jaz a roupa embolorada;

e não te doem mais as cicatrizes, pois pra sempre vais olhar a grama por um ângulo incomum: pelas raízes…

Zoogonia

intranquilo, anêmona de zinco pulso e esquecimento ateio fósforo-absinto ao vento

albatroz-pantera estranha tu entranha-me o fumo atroz do sonhamento

tua sede anima minha sede a minha fome anima tua fome

animal de passos densos que pensado como que desen cantado some

Réquiem sujo

poeta de carne e história vou te compor uma desomenagem à maneira de lírios ou crisântemos que se oferece aos que já foram

este lamento fúnebre dedico antes não ao teu corpo você não está morto provavelmente ainda caga e fede – ainda chora? não é tua dimensão orgânica que pranteio mas a porção que canta – ainda canta? suja, entre as ruínas e o espanto da precariedade da vida da servidão que desumaniza do óleo asqueroso que se acumula entre os séculos

poeta de tempo e fígado canto a morte não do titulo os nomes morrem todos os dias não a morte do ofício enquanto existirem pedras no caminho, nascerão josés todos os dias mas a lenta e desencantada morte no teu peito de uma idéia que também é minha barganha perecível como estrelas bela como estrelas substância sem mercadoria pois facilmente subtrai-se:

uma bandeira um grito um ribamar

e no granito da inércia sobram duas rimas

pode ser ferreira pode ser gullar

Desígnios Terceiros

ACORDO, as luzes vívidas deflorando-me a retina carne, carbono, linho. morrendo. eu, capital humano de cujas mãos toda labuta não me nutre em cujas células repousa uma fagulha de existencia alguma. estrangeiro de meu ser, LEVANTO. não cabe chorar, não resta sentido no rastro de lágrimas. engulo carne e graõs. morrendo. me lavo e me visto e me faço apresentável e sigo morrendo.

encontro fantasmas mirrados alimentando no fundo de seus estômagos um verme de esperança e medo. e como sintoma de uma aguda miopia o sorriso lhes corta a face: ardil perverso a pretesto de ostentar as presas.

-vejam estas 32 pérolas de cinismo esmaltado, marfim amargo entre os lábios entreabertos.

triste ver um riso opaco, sem eco de razão que o legitime. mas ainda sobre pernas, pele, cabelo e víceras, SIGO.

caminho entre coisas da civilização, e sinto-me um macaco, cada dia mais. chego a meu destino, cemitério de objetos funcionais e objeto-me em função de anseios outros, desígnios terceiros, alheios aos meus. a certeza do final do dia, o amor que se renova como apêndice de um roteiro em que seres se debatem cegos.

consumir e sumir consumir e sumir consumir e sumir consumir e sumir

beba, compre, venha, creia, não perca, não pise, viva o melhor. imperativos como bocas a nos engulir completamente. nada mais é livre de gerar receita: sentimentos a granel, em tantas vezes sem juros.

em meio a este árido mercado de emoções, volto para casa, morrendo, ciente de que contribuí para a manutenção da propriedade. em silêncio.


 
 
 

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