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“Estes poetas são meus”

  • 28 de jan. de 2012
  • 3 min de leitura

Poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez

Traduzo este poema de Mario Benedetti em homenagem ao poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez e vários outros poetas-lutadores que assumiram a árdua tarefa de ser artista-em-luta. Dedido este poema também a poeta colombiana Angye Gaona, que vem sendo perseguida pelo governo colombiano por crimes que não cometeu. Aproveito para agradecer a irmá de Ibero, Sara Gutierrez, que me brindou com material muito bonito sobre a obra de Ibero (que era artista plástico também). Como já disse Pedro Tierra no belo poema “Há um lugar na barricada”: “Se entre os companheiros ainda / há quem pergunte a razão / dos poetas, // encontra, primeiro, teu lugar na / barricada, depois, entre os combatentes,/ aponta / o rosto enérgico de tua poesia”. O caminho dos poetas-lutadores e dos artistas-em-luta, no geral, não é fácil até porque muitas vezes são mal vistos pelos próprios companheiros de luta… mas esses são essenciais tanto pra compreensão concreta e profunda do espírito de uma época, quanto pra vislumbrar o novo…

ESTES POETAS SÃO MEUS – MARIO BENEDETTI

“Estes poetas são meus” Carlos Drummond de Andrade

Roque leonel ibero rigoberto ricardo paco otto-rené javier quantas vezes e em quantas reuniões e assembléias os terão (mal) tratado de pequeno-burgueses terão ficado sozinhos com seu antigo costume de raciocionar / ou a sós com o rigor científico a sós com um impulso moral / a sós em uma solidão não querida nem buscada a sós com seus amores ao próximo à próxima com a preocupação de que os segregavam sozinhos para entender tudo e a todos

quantas vezes e em quantas esperanças ou rotas terão andado tateando a relâmpagos deixando repousar o tempo da poesia eles infatigáveis rebentando-se sabendo que não eram os pequenos burgueses que os rudes companheiros diziam

que não eram os frouxos os livrescos olhando-se no espelho até desentranhá-lo como narcisos nunca / olhando-se autocríticos jamais desalentados / tratando de encontrar o resquício a brecha o abrigo o mérito de ser como os outros ou algo assim

quantas vezes e em quantos cochilos insones terão considerado a pena ou o atalho de apagar a poesia / de apagar-se como poetas / apagar o modesto delírio e juntar as palavras voláteis e transformá-las por outras as concretas e revolucionar as vinte e quatro horas e por-se no esquema e abandonar os tropos e andar ao mesmo passo / nadar o mesmo rio e fabricar assim a infundada esperança de serem iguais aos outros / serem igualmente julgados e medidos

quantas vezes e em quantas lagoas e memórias terão querido ser / luz vermelha / terra verde e compartilhar a luta em pedacinhos aprender sangue a sangue o alfabeto qual se não o soubessem / desde baixo arder na bondade elementar sentir a fúria como um calafrio continuar o amor sem os alertas companheríssimos nas difíceis joviais nas fáceis igualmente medidos e julgados

mas um dia uma noite uma qualquercoisa arriscaram o corpo a miséria os versos souberam de repente que a lei era velha que os suaves poetas ainda que se esgoelem ainda que vençam o vento e a lua dispõem de uma só ocasião decisiva a fim de que os rudes queridos companheiros admitam que nem sempre / mas às vezes / esses da palavra esses de calma em germe podem ser valorosos como um sonho leais como um rio fortes como um imã o grave é que sua única ocasião é morrer uma forma talvez de desmorrer-se defendendo uma causa pela que outros não precisariam morrer para serem aceitos para serem abraçados e acreditados.

quantas vezes e em quantas substancias e cegueiras terão insistido na candura e buscado argumentos com raiva / resistido para apontar o inimigo / o chumbo que vinha no ar aniquilando matando desmintindo desabrigando ardendo e terão desesperado a esperança de encurralar a confiança ou de inspirá-la

e no entanto / logo / em um segundo em uma eucaristia de tiros na revelação das explosões na tortura sem promessa e última em um instante breve como um trago sem argumentos / sem palavras / ternos tristíssimos finalmente e desapegados nesse instante que não tem fim desfeitos e refeitos de coragem explodidos de fé / mortos de pena deixaram de aspirar quando o lampejo quando o sabor final e o vislumbre quando mudaram a tênue amargura de pequeno burguês pela de mártir.


 
 
 

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