top of page

Dalton e Lênin!

  • 12 de ago. de 2010
  • 2 min de leitura

Caderno que Roque usava pelo mundo afora (e na guerrilha) para escrever suas poesias. Clique para ampliar. Abaixo a tra(b)dução de um poema do poeta guerrilheiro Roque Dalton que li num momento muito forte, daqueles momentos que te fazem sentir a beleza brilhante dos caminhos que se cruzam, que tudo é tanto (e ainda tão pouco). Esse poema está no livro “Un libro rojo para Lenin” do qual estou profundamente incubido de traduzir… esse livro é um dos livros mais ousados de Dalton, um ‘poema-collage’, como ele mesmo intitula, onde, através de fragmentos em prosa, em poesia, citação de documentos oficiais de Lênin, diálogos imaginários entre grandes personagens históricos, Roque faz uma homenagem desafiante a Lênin, quebrando toda a respeitosa-ortodoxia para tratar o leninismo (Dalton estudou longamente Lênin para fazer esse livro, construído ao longo de anos em vários países). Dalton queria, ao mesmo tempo, proteger o pensamento leninista do uso vulgar que ganhava espaço na União Soviética (Stalin) e levar adiante a reflexão de Lênin, colocando-a em contato com a realidade latinoamericana.

Roque Dalton e Lênin: maior tesão poético-revolucionário que isso?

Teria dito Otto René Castillo* pensando em Lênin

Ninguém vai à montanha buscar a glória. Ninguém que não seja um imbecil, quero dizer. No fundo ninguém elabora sua poesia pela glória. Ninguém que seja um poeta, quero dizer. Admito que os que vão à montanha, em ocasiões se colocam o problema da morte eventual em forma quase sensualista. Mas os poetas costumam ser sensualistas e até obscenos, pode-se dizer. Ir à montanha hoje na América Central é aceitar o problema pessoal da vida e da morte em uma proporção de sessenta por cento para a morte e de quarenta por cento para a vida. Assumir estas cifras não é um desvio católico do marxismo. O inimigo é mais forte que nunca porque nós somos mais débeis e estamos mais divididos que nunca. Ir à montanha é um ato político-militar e não uma atitude poética tradicional. Se trata de por uma pedra em nosso prato da balança e não de uma efusão espiritual. Assim cada um é livre para ir-se à montanha com sua poesia, suas efusões espirituais, seus amuletos**. Na verdade, as unidades guerrilheiras transbordam de poesia, efusões espirituais e amuletos, mas se servem mais e melhor da boa pontaria, da resistência física e das facas de caça. Estas são algumas verdades que honram sobremaneira ao poeta guerrilheiro. Em geral, é certo que o sacrifício que não tenha uma eficácia real na história é idiota. Creio que esta é uma conclusão de espírito leninista. Porém, quem pode saber antecipadamente o que terá eficácia real na história? Tratar de obter essa eficácia arriscando a vida é a maior grandeza do homem. O camarada Lênin estaria de acordo. Ele, que sempre nos buscou a mística chaga da dignidade e da honra. Ele, que vive em suas palavras unicamente para aqueles que vão mais além das palavras.

* Otto René Castillo foi um poeta guerrilheiro da Guatemala amigo de Roque Dalton. Otto foi assassinado nas montanhas, na guerrilha para libertar seu país.

** A palavra original é ‘guardapelos’, daqueles pingentes que se pode abrir e ver uma foto dentro… geralmente trocados entre amantes… não achei um termo equivalente em português. Pensei em ‘relicário’, ou ‘pingente’ mesmo… mas senti que ‘amuleto’ transmitiria um pouco melhor a idéia que inferi do texto.


 
 
 

Comentários


bottom of page