Casa das Américas
- 5 de mar. de 2010
- 3 min de leitura
Sabia que existia no IEL (instituto de estudos da linguagem da unicamp) a revista Casa das Américas, que é uma organização cubana muito porreta que existe desde a revolução e que promove a cultura latino-americana… Seus prêmio literários lançaram diversos artistas porretas como Roque Dalton (traduzido aqui neste blog) e Eduardo Galeano. Fui procurar no acervo e descobri que o IEL tem essa revista arquivada desde a década de 60!!!! Aaaahhhhh! Agora vou eu, aos poucos e desesperado, lendo uma por uma e traduzindo coisas aqui pra vocês… este primeiro que traduzo é o Nelson Simon, um dos expoentes da poesia homoerótica de Cuba! É! Isso mesmo! Poesia homoerótica em Cuba: vanguardíssima! 😉
RAGAZZO
A palavra “ragazzo” não tem tradução: aprendi isso debaixo da luz intensa do verão de Roma, ainda fascinado pelo mármore piedoso da fonte de Trevi; enquanto percorria – invisível e absorto – Piazza Venezia.
Perdido na conversação sem sentido que sustentam os turistas; cansado de admirar os estragos do tempo que faz pó da carne e silêncio da pedra, me sentei em um banco a ver como a tarde descia até Trastevere. Com ela, envolta em suas favas, ia minha alma, e alguma ilusão vã como o país do qual havia chegado. (Por então havia compreendido que a ilha sempre falará de doermos como um cardo, que, pobre se crava em nosso peito.)
A palavra “ragazzo” não tem tradução: não a busque em vão nos dicionários, não pergunte por seu significado nem nas praças mais nobres, nem nas sórdidas tavernas onde o fumo do tabaco e o odor da cerveja se entrecruzam como um cisne invisível que te empurra até a tentação. Os sensuais muchacos de La Habana, abertamente tristes com suas praias, nunca poderão ser nomeados com a palavra “ragazzi”. Os alegres chicos de Andaluzia, com lábios que se oferecem qual carnosas olivas, nunca vão rir com a doce perversidade de um ragazzo. Os modernos jovens de Nova York, com seus músculos perfeitos como o aço que sustenta sua cidade não podem abraçar com essa paixão antiga, mescla de sangue e lírio tostado pelo sol mediterrâneo, que arrastam os ragazzi.
O “ragazzo” se sentou a meu lado num simples banco da Piazza Venezia, e a cidade de Roma, até então só esplendor de ruínas e de sonhos, foi outra de repente. Teve o mistério e o glamour que eu havia imaginado pra ela. Falou e apenas pude compreender ao estender sua mão, firme como as pontes que atravessamos, que me convidava a andar, quando junto a tarde descemos até o Trastevere. Vimos passar os botes e algum pássaro cinza, qual fantasmas românticos. Sentimos em nós o aroma culpado dos homens que antes se haviam amado junto às calmas águas. Nunca deixei sua mão. Nunca disse seu nome nem quis lhe perguntar. Pode chamar-se Adriano, Fabrizzio, Giuseppe, ou Giuliano: nomes que sempre deixariam sua música no esmalte de meus dentes. Seu perfil me acompanha ainda como as imagens desses jarros que vi nos museus. Sua boca me segue recordando a lua atada sobre o Trastévere. Seu cabelo descuidado, seu corpo perfeito e disposto só podem caber nessa palavra intraduzível: “ragazzo”. Eu aprendi aquela tarde o que já Pasolini havia visto nos “pepillos” romanos, o que o fazia viver, cada noite, à borda do abismo, sempre dentro do punho pálido e sedutor da morte.



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