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Camarim de Prisioneiro

  • 14 de mai. de 2011
  • 2 min de leitura


Algumas poesias do segundo e último livro do poeta-guerrilheiro Alex Polari. O livro, escrito no período de transição do presídio para a liberdade condicional, é uma retomada de toda sua história, desde a infância, passando pelo envolvimento com a militância, com as atividades clandestinas durante a ditadura, os tempos de presídio e a liberdade. Obra fundamental da literatura brasileira moderna… vi na internet que talvez ele dê depoimento sobre seu tempo de calabouço e tortura para a novela “Amor e Revolução”…

A CÉLULA DO SETOR SECUNDARISTA

À noite sonhávamos e durante o dia comíamos os sonhos da padaria em frente.

PROFISSÃO DE FEL

Enquanto vocês se vendiam barato com ares de grande dignidade fiquei por aí zanzando feito uma besta fazendo a revolução dos imberbes praticando a pureza dos tolos.

Minhas concepções mudaram mas tenho muito orgulho de não ter sido um burocrata.

Dizem que os desvios de direita são mais fáceis de consertar. Mas sempre gostei de errar pela esquerda mesmo correndo o risco de não ficar vivo prá fazer auto-crítica.

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS

Dancem os que tenham motivos divirtam-se os imbecis convictos eu por mim só canto o que me desespera o resto, adio.

COLÔNIA PENAL BRASILIENSIS

Desligaram as máquinas o que restou, jogaram no fosso dos ossos fizeram pentes dos corpos piruetas dos cabelos perucas dos pentelhos palitos da pele roupas e da voz agoniada e rouca eles foram costurando cada grito e cada boca um por um deles foram juntando eco por eco de desespero caco por caco de amargura e assim eles inventaram esse silêncio.

REFLEXÃO SOBRE NOSSO FUTURO E DOS TEMPOS

Já amei várias mulheres e com elas corri da polícia me entoquei em sobrelojas decadentes mictórios de bares, velhos sobrados onde bradei meus slogans debaixo de marquises cinzentas próximo a notórios líderes procurados durante cargas de cavalaria e chuva de papel picado. Porém quando começamos a namorar eu estava numa masmorra e ainda não havia manifestação de massa. Antes de qualquer ativismo e vínculo ideológico nos prendia o velho tesão de homem e mulher.

Hoje, porém, nessa passeata eu percebi como é bonito e inquietante pensar a mãe que você é do meu próprio filho lá, toda agitada, nervosa no meio daquele barato todo enquanto eu fico aqui preocupado feito o diabo com a sua pneumonia. Algo me diz: o pulsar das novas eras vai ter esse sacolejo ritmo esquisito e sopinha do filhote deixado em casa e a palavra de ordem gritada na desordem das ruas e o sorriso dele e a pauleira do comício a tarja preta pelos mortos e a pulseira colorida pela vida.

E quem começou pelo fim terminará achando seu início.

CONFISSÕES DE ÚLTIMA HORA

Hoje, nesta visita íntima senti-me sem qualquer intimidade com esse mês de setembro que prenuncia minha saída. Já mais próximo do meu livramento condicional me vejo incondicionalmente vítima de tudo, vitrine de minha própria loucura.

E vivo a merda de um vazio despropositdo uma total indiferença ante a liberdade e até uma certa náusea por ela.

Tenho medo de sair, preguiça de viver e horror de ser tomado por tal letargia no dia que puser os pés fora dessa prisão.

Tudo perdeu o sentido e eu escolhi me decretar atingido por fatos que normalmente tiro de letra. Fiz toda força que pude prá me fragilizar antes que fosse tarde e mais uma vez eu subisse ao pódium para uma vitória à custa de minha emoção. Eu que durante tanto tempo resisti na esperança desse momento na sensação de superioridade que ele me daria caso eu conseguisse retê-lo tenho apenas algumas semanas para recuperar minha fantasia sem a qual sairei daqui derrotado e todos esses anos não terão tido qualquer sentido. Confesso, é uma sensação tão doida, doída contraditória com tudo que por um momento quase não publico esse livro.

POEMA DE SAÍDA BREVE

Viver, Porra!!!

 
 
 

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