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Assunção de ti

  • 7 de dez. de 2012
  • 2 min de leitura

Tiersen para ouvir enquanto lê o poema de Benedetti que traduzi…

Assunção de ti (Mario Benedetti)

Quem acreditaria que falava sozinho no ar, oculto, teu olhar. Quem acreditaria essa terrível ocasião de nascer posta ao alcance de minha sorte e meus olhos, E que tu e eu iríamos, despojados de todo bem, de todo mal, de tudo, nos prender no mesmo silêncio, nos inclinar sobre a mesma fonte para nos ver e nos ver mutuamente espiados no fundo, tremendo desde a água, descobrindo, pretendendo alcançar quem eras tu detrás dessa cortina, quem era eu detrás de mim. E todavia não vimos nada. Espero que alguém venha, inexorável, sempre temo e espero, e que acabe por nos nomear em um signo, por nos situar em alguma estação por nos deixar ali, como dois gritos de assombro. Mas nunca será. Tu não és essa, eu não sou este, esses, os que fomos antes de sermos nós.

Eras si mas agora soas um pouco a mim. Era si mas agora venho um pouco de ti. Não demasiado, somente um toque, acaso um leve traço familiar, mas que force a todos a nos abarcar a ti e a mim quando nos pensem sós.

2 Chegamos ao crepúsculo neutro onde o dia e a noite se fundem e se igualam. Ninguém poderá esquecer este descanso. Passa sobre minhas pálpebras o céu fácil a deixar-me os olhos vazios de cidade. Não penses agora no tempo de agulhas, no tempo de pobres desesperos. Agora só existe o anseio desnudo, o sol que se desprende de suas nuvens de pranto, teu rosto que se interna noite adentro até somente ser voz e rumor de sorriso.

3 Podes querer a alvorada quando ames. Podes vir a reclamar-te como és. Conservei intacta tua paisagem. A deixarei em tuas mãos quando estas cheguem, como sempre, anunciando-te. Podes vir a reclamar-te como eras. Ainda que já não sejas tu. Ainda que minha voz te espere só em seu azar queimando e teu sonho seja isso e muito mais. Podes amar na alvorada quando queiras. Minha solidão aprendeu a te ostentar. Esta noite, outra noite tu estarás e voltará a gemer o tempo giratório e os lábios dirão esta paz agora, esta paz agora. Agora pode vir a reclamar-te, penetrar em teus lençóis de alegre angústia, reconhecer teu tíbio coração sem desculpas, os quadros persuadidos, te saber aqui. Haverá para viver qualquer fuga e o momento da espuma e do sol que aqui permaneceram. Haverá para aprender outra piedade e o momento do sonho e do amor que aqui permaneceram. Esta noite, outra noite tu estarás, tíbia estarás ao alcance de meus olhos, longe já da ausência que não nos pertence. Conservei intacta tua paisagem mas não sei até onde este intacto sem ti, sem que tu lhe prometas horizontes de névoa, sem que tu lhe reclames sua janela de areia. Podes querer a alvorada quando ames. Deves vir a reclamar-te como eras. Ainda que já não sejas tu, ainda que contigo tragas dor e outros milagres. Ainda que sejas outro rosto de teu céu até mim.


 
 
 

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