Adela Zamudio (Bolívia)
- 22 de ago. de 2013
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NASCER HOMEM (Adela Zamudio)
Quanto trabalho ela tem pra corrigir a torpeza de seu esposo, mas na casa, (permita-me o assombro) tão inepto como fátuo segue ele sendo a cabeça, porque é homem.
Se alguns versos escreve -“De alguém esses versos são que ela só os subscreve”; (permita-me o assombro) Se esse alguém não é poeta por que tal suposição? -Porque é homem.
Uma mulher superior em eleições não vota, e vota o sacana pior; (permita-me o assombro) Com só saber assinar pode um idiota votar, porque é homem.
Ele se abate e bebe ou joga em um revés da sorte; ela sofre, luta e roga; (permita-me o assombro). Ela se chama “ser débil”, e ele se apelida “ser forte” porque é homem.
Ela deve perdoar se seu esposo lhe é infiel; mas, ele pode se vingar; (permita-me o assombro) em um caso semelhante até pode ele matar, porque é homem.
Oh, mortal! Oh mortal privilegiado, que de perfeito e honesto goza seguro renome! Para você que basta? Nascer homem.
(tradução de Jeff Vasques)

Adela Zamudio (Cochabamba-Bolívia, 1854-1928) publicou seu primero poema aos 15 anos, entitulado “Duas rosas” e, desde então, não pararia mais de escrever, sempre assinando com o pseudônimo de “Soledad” (Solidão), seu nome de guerra. Apesar de ter cursado apenas até o terceiro ano do primário (essa era a educação máxima a que as mulheres bolivianas tinham direito à época), seu desejo por conhecimento e liberdade à leva a instruir-se por conta própria. Por suas idéias avançadas para a época é isolada socialmente e aprende desde cedo a lidar com a tristeza e solidão a que se viu ilhada.
Adela, já como professora, desenvolve uma fecunda atividade pedagógica buscando eliminar as travas reacionárias que conduziam a educação das jovens bolivianas. Em sua defesa dos direitos das mulheres de receber boa educação, Adela Zamudio clamava a necessidade de introduzir o laicismo nos programas acadêmicos nacionais, lançando algumas propostas audazes para sua época, como a instauração do matrimônio civil, o direito ao divórcio e à separação dos poderes da igreja católica e do Estado. Impulsionou o ensino gratuito e laico, denunciou fortemente o ‘primitivismo patriarcal’ da sociedade e a exploração e dominação dominante. Adela Zamudio contribuiu com todos seus esforços para a formação do pensamento feminista na Bolívia: em 1921 aparece em Oruro o primeiro número da revista “Feminiflor”, dirigida e escrita por mulheres que fortaleciam o ideal da liberação feminina; e, em 1923, se constituiu em La Paz a primeira organização autônoma de mulheres que lutou pelos seus direitos políticos, o “Ateneo Feminino”. Por esse período, as mulheres se incorporavam ao movimento sindical, com sindicatos própios e com a Federação Operária Feminina.
Adela Zamudio forma parte da primeira geração de autoras hispânicas do período modernista que resistem à estética vigente. São autoras que apelaram em seus escritos a um projeto de autenticidade tanto pessoal e político como estético que desarticulava a visão estereotipada que se projetava da mulher no cânone socioliterário. Em Zamudio se encontra a prioridade dada a um compromisso íntegro com a realidade boliviana de seu tempo, denunciando o sistema em curso. Assim, Adela levou adiante seu projeto de legitimação e fortalecimento da mulher. Lydia Parada de Brown considera que “esta escritora boliviana foi uma das maiores da América, mas lamentavelmente não alcançou a fama de Gabriela Mistral, ou de Juana de Ibarbourou”. O poema que traduzi acima é um de seus poemas mais famosos.



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