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A memória – Roque Dalton

  • 23 de nov. de 2011
  • 2 min de leitura


Assim eram as tardes de nossa primeira juventude ouvíamos as Folhas Mortas My Foolish Heart ou Sem Palavras no Hotel do Porto e você tinha um nome claro que soava muito bem em voz baixa e eu acreditava nos deuses de meus antigos pais e te contava doces mentiras sobre a vida nos distantes países que visitei. E nas noites de sábado dávamos largos passeios sobre a areia úmida descalços de mãos dadas em um profundo silêncio que só interrompiam os pescadores em suas embarcações iluminadas desejando-nos a gritos felicidade.

Depois regressávamos à cabana de Billy e tomávamos um copo de conhaque frente ao fogo sentados na pequena almofada de Lurçat e logo eu te beijava a cabeleira solta e começava a percorrer teu corpo com estas mãos sábias que nunca tremeram no amor ou na batalha.

Tua nudez surgia na pequena noite da alcova do fogo entre as coisas de madeira debaixo da lâmpada golpeada como uma flor rara a de todos os dons sempre para encher-me de assombro e chamar-me a novos descobrimentos.

E tua respiração e minha respiração eram dois rios vizinhos e tua pele e minha pele dois territórios sem fronteira e eu em ti como a tormenta tocando a raiz dos vulcões e tu para mim como o desfiladeiro chovido para a luz do amanhecer.

E chegava o momento em que eras só o mar só o mar com seus peixes e seus sais para minha sede com seus vermelhos secretos coralinos e eu te bebia com a generosidade do pequenino outra vez o mistério de toda a água junta no pequeno buraco aberto na areia pelo menino.

Ai amor e esta é a hora poucos anos depois em que teu rosto começa a fazer-se débil e minha memória está cada vez mais vazia de ti.

Teu nome era pequeno e aparecia numa canção daquele tempo.


 
 
 

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