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A lua com gatilho – Raúl González Tuñón

  • 20 de mai. de 2012
  • 2 min de leitura


Abaixo a tradução que fiz do poema-manifesto do poeta-lutador argentino Raúl González Tuñón. Mais uma reflexão sobre o papel da poesia nos dias de bárbarie em que vivemos.

A LUA COM GATILHO

É preciso que nos entendamos. Eu falo de algo certo e de algo possível. Certo é que todos comam e vivam dignamente e é possível saber algum dia muitas coisas que hoje ignoramos. Então, é necessário que isto mude.

O carpinteiro fez esta mesa verdadeiramente perfeita onde se inclina a menina dourada e o pai celeste resmunga. Um ebanista, um pedreiro, um ferreiro, um sapateiro, também sabem o seu.

O mineiro desce à mina, ao fundo da estrela morta. O campesino semeia e ceifa a estrela já ressuscitada. Tudo seria maravilhoso se cada qual vivesse dignamente.

Um poema não é uma mesa, nem um pão, nem um muro, nem uma cadeira, nem uma bota.

Com uma mesa, com um pão, com um muro, com uma cadeira, com uma bota, não se pode mudar o mundo.

Com uma carabina, com um livro, isso é possível.

Compreendes por que o poeta e o soldado podem ser uma mesma coisa?

Marchei atrás dos operários lúcidos e não me arrependo. Eles sabem o que querem e eu quero o que eles querem: a liberdade, bem entendida.

O poeta é sempre poeta mas é bom que ao fim compreenda de uma maneira alegre e terrível quão melhor seria para todos que isto mudasse.

Eu os segui e eles me seguiram. Aí está a coisa!

Quando se tiver que lançar a pólvora o homem lançará a pólvora. Quando se tiver que lançar o livro o homem lançará o livro. Da união da pólvora e do livro pode brotar a rosa mais pura.

Digo ao pequeno padre e ao ateu de botequim e ao ensaísta, ao neutro, ao solene, e ao frívolo, ao tabelião e à corista, ao bom coveiro, ao silencioso vizinho de um terceiro, a minha amiga que toca o acordeon: -Olhai a mosca sufocada embaixo da redoma de vidro.

Não quero ser a mosca sufocada. Tampouco tenho nada a ver com o macaco. Não quero ser abelha. Não quero ser unicamente cigarra. Tampouco tenho nada a ver com o macaco. Eu sou um homem ou quero ser um verdadeiro homem e não quero ser, jamais, uma mosca sufocada debaixo da redoma de vidro.

Nem colméia, nem formigueiro, não compares os homens a nada mais que não seja homem.

Dá ao homem tudo o que necessite. Os pesos para pesar, as medidas para medir, o pão ganhado altivamente, a flor do ar, a dor autêntica, a alegria sem uma mancha.

Tenho direito ao vinho, ao azeite, ao museu, à Enciclopédia Britânica, a um lugar no ônibus, a um parque abandonado, a um cais, a uma açucena, a sair, a ficar, a dançar sobre a pele do Último Homem Antigo, com meu esqueleto novo, coberto com pele nova de homem reluzente.

Não posso cruzar os braços e interrogar agora o vazio. Me rodeiam a indignidade e o desprezo; me ameaçam o cárcere e a fome. Não me deixarei subornar!

Não. Não se pode ser livre interamente nem estritamente digno agora quando o chacal está à porta esperando que nossa carne caia, apodrecida.

Subirei ao céu, lhe colocarei gatilho à lua e desde cima fuzilarei o mundo, suavemente, para que este mude de uma vez.


 
 
 

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